terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
   A formação do médico é um somatório de conhecimentos técnicos, aulas práticas de psicologia e sociologia, exemplos de comportamento exemplares ou claramente equivocados. Nesses últimos, entra a formação ética/psicológica que veio de sua casa, o que aproveitar e o que descartar da miríade de seres que você conhece nos plantões da vida, que eu gosto de chamar de zoológicos.
Doc Brown
   Você acaba cruzando com pessoas que os mais crédulos numa entidade superior acreditariam que foram colocadas no seu caminho de propósito, para que você aprendesse alguma lição em sua vida. Alguns  marcam o nosso jeito posterior de agir, de nos comportarmos. O Dr. Ligadão era um cara desses.
   Dr. Ligadão era o cirurgião geral de um desses inúmeros plantões que eu dei como acadêmico durante a faculdade em pronto socorro. Tinha esse apelido nas internas porque  simplesmente não dormia. Por não dormir, entendam no sentido literal. Ele não ficava insone somente durante nossos noitadas na emergência, segundo ele, dormia mais ou menos 2 ou 3 horas a cada 3 dias. Os olhos eram meio esbugalhados, calvo, lembrava um pouco o Doc Brown, personagem do Cristopher Loyd no De Volta para o Futuro. Tragava quantidades rubembragueanas daquele cigarro Minister (nem sei se ainda existe...), sentado em sua mesinha na sala de conforto médico do pronto socorro a madrugada inteira, lendo, conversando com os plantonistas do horário que ficavam acordados, ensinando acadêmicos e residentes técnica operatória.
   Aliás, tinha uma paciência infinita pra ensinar, infinita mesmo. Tinha predileção por acadêmicos de terceiro ano (nós...), que não tinham os conhecimentos mais básicos de porra nenhuma e ensinava o beabá da cirurgia, ficava com a gente na sala de sutura e chamava pra auxiliar cirurgia, explicando todos os passos. Seu tratamento para com os pacientes e colegas era exemplar, desde que a recíproca fosse verdadeira. Quer um exemplo? Uma colega nossa de plantão, viciada em dolantina, foi flagrada desmaiada no quarto feminino com seringas e ampolas por perto. Após a total recuperação do episódio, num outro plantão, Dr. Ligadão expôs a moça a uma das maiores humilhações públicas que eu já presenciei, esporro daqueles pra colocar nos anais da esporrologia moderna. Ela chorou muito, prometeu parar. Algum tempo depois fiquei sabendo que tinha se matado em seu apartamento no Rio, overdose. Se ele ficava sabendo de algum dos estudantes que fumasse baseado, lá vinha esporro também.
Barão de munchhausen
  Outro lance famoso que ilustra bem sua dúbia personalidade aconteceu na famosa salinha de sutura, ele e uma acadêmica novata aprendendo a suturar num bandido do morro próximo, completamente transtornado por cocaína. Durante o aprendizado da menina, o paciente começou a insultá-la, "puta" era o termo mais simplório utilizado. Ligadão puxou a pistola que ele não abandonara após se reformar do exército e aplicou uma respeitosa coronhada na cabeça do coitado, abrindo mais uma lesão QUE A PRÓPRIA MENINA SUTUROU. Muito tempo depois a gente brincava com ela, dizendo que como a sutura dela não estava boa, o Ligadão produziu mais um corte suturável pra ela treinar mais. Esse episódio terminou num daqueles processos administrativos internos que são devidamente engavetados. O traficante, óbvio, não prestou queixa (aliás, do jeito que estava travado, nem dor deve ter sentido...), e o Ligadão aproveitou a coronhada e disse que se ele abrisse mais a boca pra xingar alguém no plantão dele, ele não ia bater, ia atirar. Ninguém duvidava.
   Contava  causos dignos de um pescador. Dizia que já tinha entubado um paciente em parada respiratória sem usar laringoscópio, mais ou menos como veterinários entubam cachorros para operar. Se eu fosse falar aqui de todas as vezes que ele me contou que abrira pacientes na sala de emergência  (1) com intervenções heróicas, daria outro post. Detalhe: seus pacientes das histórias sempre se salvavam. Eu gostava de compará-lo àquele célebre personagem das fábulas, Barão de Munchhausen, (fizeram até um filme...), que o Monteiro Lobato gostava de colocar nos livros do Sítio do Picapau Amarelo, famoso por ser um PUTA mentiroso, que sempre dava um jeito de se dar bem. O problema é que quando você via o cara no dia a dia, começava a acreditar nas suas peripécias.
   Senti muita falta dele depois que acabei aquele estágio. Fui até cúmplice dele numa das sacanagens que ele aprontou com um colega. Foi mais ou menos assim: esse colega era o cara mais chato que eu já tinha conhecido, uma mala sem alça. Nesse plantão ele tinha comprado uma coca de 2 litros e deixado na geladeira, o Ligadão tinha aberto e tomado um copo. O cara fez um escarcéu tamanho que o Ligadão foi no bar em frente ao hospital e comprou outra coca igual, pôs uma etiqueta com o nome do cara na garrafa e colocou na geladeira. Me pediu que roubasse um Lasix (2) no PS e, depois de distrair o cara,  mandou colocar o conteúdo da ampola inteiro na garrafa. Não preciso nem contar quantas vezes ele foi no banheiro urinar naquela noite e eu neguei até a morte participação naquilo...
   Quando fui ao Rio, já morando em São José, anos depois, correndo na rua, encontrei um colega do plantão, no Grajaú. Perguntei do Ligadão e ele me contou que o câncer de pulmão o tinha levado , naquele ano. Pagou o preço dos milhares de cigarros de sua vida. Dessa vez nosso Barão de Munchhausen não tinha conseguido se safar...Vai em paz, xará, pro céu dos mentirosos...


Notas do autor: 1) Fazer toracotomias de urgência no PS é um procedimento heróico, pouco utilizado, feito quando não se tem alternativa. Por exemplo realizado na Lady Di na noite de sua morte, em 1997.

2) Diurético potente, nome farmacêutico: furosemida.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Este texto é atribuído a Luis Fernando Veríssimo. Se é dele, não sei, mas acho que vale a pena ler e refletir. Uma pena que esses milhões de pessoas que assistem o programa nem sabem por que ele se chama Big Brother. Orwell morreria de desgosto...

"BIG BROTHER BRASIL
(Luiz Fernando Veríssimo)

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço...A  décima primeira (está indo longe!) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil,... encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.

Dizem que em Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir, ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... todos, na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE...

Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB. Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.

Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que  recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo.

Eu gostaria de perguntar, se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.

Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis?

São esses nossos exemplos de heróis?

Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros: profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor, quase sempre mal remunerados..

Heróis, são milhares de brasileiros que sequer têm um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir e conseguem sobreviver a isso, todo santo dia.

Heróis, são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.

Heróis, são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada, meses atrás pela própria Rede Globo.

O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral.

E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!

Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.

Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social: moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?

(Poderiam ser feitas mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores!)

Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.

Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema..., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir.

Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade."
 
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Residentus sapiens sapiens
   Costumo dizer que o ser inferior mais próximo do ser humano é o residente. Exageros à parte, esse segmento da vida médica é dos mais ricos, pródigo em histórias, estressante, insuportável, sensacional. Faça um exercício mental: Imagine trabalhar 24 horas seguidas. Imaginou? Agora coloque uma bruxa maldita ou um chefe estúpido (chefe no sentido pejorativo, pois os dois chefes de residência que tive eram por acaso absolutamente justos e sensatos) berrando na sua orelha o tempo todo. Acrescente estudar ao mesmo tempo para saber bem o que você está fazendo mais períodos de privação de água, comida, bom senso. Já? Ok, agora vira um caminhão de merda na sua cabeça e pronto, você é um residente.
   Sem eles, o hospital público não funciona. Realizam as mais variadas tarefas, além de desempenhar sua função médica. Algumas delas:

1) Office Boy: O staff ou preceptor quer almoçar? O laboratório está demorando para liberar exames? Você esqueceu alguma coisa no carro, 13 andares abaixo? Sem problemas, chame seu residente e encarregue-o da tarefa, ele será o office boy mais bem formado que você terá. Lembro uma vez que um colega trouxe o almoço de um staff , e num dos sacos plásticos havia uma lata de refrigerante e uma moeda de troco. O cara, acintosamente, tirou a lata do saquinho e jogou com raiva no lixo, por causa da moeda. Azar o dele que esse meu colega era pavio curto, lembro de quase agressão física, tiveram que separar os dois. Parecia aquela briga de crianças tipo "cuspi no chão, se pisar no cuspe chamou minha mãe de puta e vai morrer..." Hoje os dois riem do episódio.

2) Psicólogo: Os staffs, no meu caso da anestesia, eram pessoas em constante crise existencial. Reclamavam de tudo e de todos. Do cirurgião, do salário, do salário do cirurgião, das condições de trabalho, do chefe, dos residentes...Obviamente hoje em dia eu deixo essas pessoas falando sozinhas, fujo, digo que estou com diarréia, invento um surto psicótico, finjo que estou muito ocupado e por aí vai. Mas na época arrumar inimizade com um staff do serviço não era um bom negócio. Agora imaginem eu, um sujeito sem a menor sensibilidade para esse tipo de serviço, tendo que escutar lamúrias reentrantes, principalmente das mulheres, e dar apoio, nem que fosse aquele clássico balançar da cabeça como quem diz "te entendo...". Chegava a doer fisicamente.

lerê lerê, lerê erê lerêêê
3) Médico Substituto: Essa é bem fácil de imaginar. Emprego público, ainda mais no RJ, paga salários ridículos. Os staffs dependiam, como todos nós, da clínica particular, suas cirurgias fora daquele ambiente. Quem mais indicado pra "segurar só uma horinha" a cirurgia pro cara ganhar dinheiro? Adivinhou, o residente. Geralmente essa horinha eram 3 ou 4, ou simplesmente o staff nem voltava. Eu pessoalmente não ligava de ficar completamente sozinho, o foda é que você não podia sair da sala, como residente, nem pra fazer xixi, ou seja, havia dias em que eu testava os limites da capacidade humana de reter eliminações fisiológicas...

4) Funcionário de pesquisas e trabalhos científicos a.k.a escravo: Às vezes não tinha como escapar, muitos "bons colegas" queriam realizar trabalhos científicos, mas precisavam da casuística. Nada melhor que um hospital público, onde o volume de doentes era alto, e eles não questionavam quando você os avisava que eram parte de um trabalho, pois era instituição de ensino.
Acontece que essas figurinhas, já conhecidas por nós, residentes, deixavam TODO trabalho braçal pra gente, e somente colocavam o nome nos créditos. Haviam várias maneiras de fugir dos mais sacanas, como dizer que já estava envolvido em outro trabalho; ou que o tema do trabalho tinha mais a ver com "..."(preencha a lacuna com o nome de qualquer colega seu que você não gostasse); ou que simplesmente você estava tratando de câncer ou tuberculose e ia ter que se afastar por um período...o importante era fugir.

5) Professor: Em algumas situações, depois de um período na residência, você já sabia mais que alguns staffs do serviço, e isso significava aguentar calado que eles fizessem atrocidades e asneiras diversas, e ainda falar em tom professoral sobre sua genialidade. Trombar de frente com essas bestas era inviável, tinha que se respeitar a hierarquia, e aqui sim, a maneira de agir exigia astúcia e sutileza. De uma maneira geral, você tinha que fazer o que VOCÊ achasse que estava certo, mas sempre deixando o staff pensar que ELE tinha tido a idéia, mais ou menos como naquele filme "Inception", plantar uma idéia na cabeça do sujeito. Outra coisa que eu fazia muito era mandar a figura ir tomar um café, fazer tudo que eu quisesse, e quando ele voltasse, dizer que estava tudo ótimo, que a anestesia dele estava perfeita.

  Residência não é só desgraça, pelo contrário, pela primeira vez na vida de médico temos um pouco de dinheiro, da bolsa e dos empregos extra (sim, ainda dávamos plantão pra tirar um extra). Geralmente solteiros, todos já com seus carros, é a fase onde mais fazemos estragos com o sexo oposto. Muitas destas histórias estão perdidas aí no arquivo do blog, leia se tiver saco. Falar nisso, se você está lendo isso e também tem um blog, ou simplesmente passa por aqui com frequência, cadastra aí ao lado no Google Friends Connect (followers), só curiosidade pra eu saber quem se suplicia lendo essas bobagens que eu escrevo. ;)
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Não é bem essa nossa realidade...
   Há um tempo venho pensando em escrever em homenagem a essas valorosas guerreiras da saúde, essas amazonas dos centros cirúrgicos que povoam o imaginário popular com suas roupas sexy de vitrine de sex shop (embora a verdade seja um pouco diferente e com menos graça): as enfermeiras. Aliás tente colocar enfermeira no Google Images e veja a quantidade de fantasias safadas que vai encontrar, tenho que me lembrar de pesquisar de onde surgiu esse fetiche.
   A enfermagem é a categoria que, junto com os anestesistas, tem a vida mais bandida num centro cirúrgico. Elas conseguem tomar esporro dos cirurgiões, de suas chefes, dos maridos e pasmem, até de alguns anestesistas, que geralmente são os seres mais tranquilos e pacíficos do ambiente, praticamente santos vivos.(o blog é meu, se quiser mentir também, faça o seu...). Pra quem não convive em nosso meio, enfermeira é aquela que fez faculdade de enfermagem e geralmente é chefe dos setores onde atua, já as técnicas de enfermagem, que convivem mais com a gente, são as que fazem um curso técnico e trabalham mais nos cuidados básicos aos pacientes e apoio aos médicos. Esclarecidas as diferenças que ninguém perguntou porque não estava interessado, um pouco da história da categoria.
Florence Nightingale.
   Não dá pra falar em enfermagem sem citar Florence Nightingale, enfermeira britânica que ficou famosa por ser pioneira no tratamento dos feridos na Guerra da Criméia(1853-1856), na península de mesmo nome, atual Ucrânia. Tradicionalmente o papel de enfermeiras era realizado por mulheres ajudantes, acompanhando exércitos, muitas vezes cozinheiras ou prostitutas que desempenhavam  o papel por castigo. Florence sempre se preocupou muito com o tratamento destes feridos, além dos mais pobres e necessitados. Ao retornar da Criméia, ela relatou às autoridades as terríveis condições do tratamento médico no front, realizando então um treinamento de 40 mulheres e seguindo depois para os Campos de Scutari, na Turquia Otomana. Em 1859 passa a dedicar-se ao ensino somente, funda a Escola de Enfermagem do Hospital Saint Thomas. Em 1883 a Rainha Vitória lhe concede a Cruz Vermelha Real e em 1907 se torna a primeira mulher a receber a Ordem do Mérito.
  Após a pequena resenha, passo a enumerar os tipos mais comuns de auxiliares e enfermeiras que encontramos em nosso pequeno zoológico:

Novatas
1) A novata ou "bichinho-do-mato": Tímidas e desconfiadas, chegam sempre olhando pra baixo e falando em tom de voz comedido, só pra algumas semanas depois serem flagradas dançando funk na salinha de enfermagem ou falando palavrões que fariam aquela sua avó beata fazer o sinal da cruz.
Confesso que tenho uma admiração especial por esta categoria, os primeiros dias delas são os melhores.Gosto de recebê-las com frases do tipo "bem vinda ao inferno"ou "você já conhece Dr. Fulano de tal? Não? Pois é, ele vai te fazer chorar...". Também curto(mas acho que elas não...)  "pegadinhas" do tipo "fulana, pega pra mim duas ampolas de "shurables", por favor, só pra ficar vendo a coitada ir na farmácia 6 vezes antes de perceber que é sacanagem.
Mas a mais legal é você pedir pra ela entrar na sala de um cirurgião que está operando e dizer que algum desafeto do cara ligou e ofereceu pra fazer a cirurgia se estiver muito difícil, se o mesmo não estiver conseguindo, de preferência um desafeto que o cara odeie bastante. As reações são as mais variadas, indo de risadas a "puta que pariu, isso é coisa do filho da puta do Hugo!"

2) As auxiliares de enfermagem "médicas": São aquelas que, por já terem experiência no seu setor, acham que sabem tanto ou mais que você, não te poupando de palpites ou olhares de desaprovação quando acham que você está cometendo um erro. Seu argumento mais utilizado é "Dr. Fulano de Tal não faz deste jeito...". São seres muito agradáveis e de fácil convívio, quase sempre tenho vontade de dizer obscenidades e impropérios, mas tento evitar pois o pior inimigo que um anestesista pode ter é a enfermagem. Elas podem transformar sua vida num paraíso ou num inferno...

Presidente da A.S.M.A. caçando uma vítima
3) A A.S.M.A.: Sigla para Agarre Seu Médico Agora, associação criada para organização e sistematização de golpes do baú em geral. O que elas não perceberam é que, tirando algumas poucas exceções, nossa categoria não tem mais o glamour e a riqueza de outrora, ganhamos atualmente o suficiente para talvez pagar as contas, ou seja, o máximo que elas arrumam pra casar é um indivíduo duro, estressado, barrigudo e que passa muito tempo fora de casa.
  Essa associação vem de um tempo em que valia a pena casar com médico, era a garantia da aposentadoria e da vida tranquila, hoje só quem enriquece é o advogado que fará a separação depois...

4) As "de reunião": Enfermeira que é enfermeira adora uma reunião, talvez até mais que dirigentes de empresa ou filiados do PT. Ainda vou descobrir o que tanto fazem em reunião, mas tenho alguns palpites. Os que  acho que tem mais chance de estarem certos : a) jogam ping pong ou videogame  b) Se reúnem para falar como aquele médico é grosso, ou aquele outro é lindo e tem barriga de tanquinho  c)Discussão sobre assuntos de suma importância para o funcionamento do hospital como o final da novela, o BBB ou ambos.

5) As plantonistas: São as que dão plantão noturno, e como ficam acordadas a noite inteira, acham que você, de sobreaviso em casa, também está. Gostam de fazer todo tipo de perguntas óbvias e ululantes neste horário, tipo: "Doutor, o senhor prescreveu dipirona em caso de dor para o paciente. O paciente está com dor. Posso fazer a dipirona?" Geralmente eu não lembro o que respondo pois estou semi consciente apenas, mas não deve ser nada agradável...

6) A Paola: A Paola me ofereceu uma grana pra eu citar ela aqui e como estou duro, topei. Paola, pode depositar na conta do Unibanco mesmo, ok?

PS 1: Queridas amigas enfermeiras, este é um texto de humor, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Se ainda assim não entenderem, eu desenho... E sim, nós amamos vocês...

PS 2: O título do texto e a maior parte dele foi escrito depois da terceira dose de Red Label, mas eu achei que ficou bonitinho e resolvi deixar assim mesmo...
domingo, 9 de janeiro de 2011
   O fato de muita gente nem saber que os anestesiologistas são médicos formados me fazem ter certeza que quase ninguém, exceto aquelas pessoas mais próximas e a parentela, tem a menor idéia de como é nossa rotina sofrida e lazarenta.
   Ser anestesista é basicamente conviver com dois tipos de fauna: cirurgiões e enfermagem. Cada uma dessas é subdividida  em raças, completamente diferentes entre si. Vamos explorar algumas delas, cirurgiões, a saber:
Cirurgião idoso esperando o dia raiar...
   1) Cirurgiões madrugadores:  Raça mais comum entre idosos e velhotes em geral, estes seres matutinos tem por missão primordial foder com o soninho mais gostoso que existe: o do início da manhã...marcam cirurgia geralmente às 6 ou 6 e meia da matina e as 6:31h já estão ligando pra você pra saber por que diabos você está TÃO atrasado (geralmente nessa hora você já se encontra no hospital no vestiário ou entrando nele...) Seus hábitos geralmente são causados por problemas prostáticos, onde o mesmo levanta várias vezes de madrugada pra fazer aquela gotinha de xixi, e na última delas não consegue mais dormir, se dirigindo então ao hospital, chegando por volta das 5h...

Esse sou eu de manhã...
2) Cirurgiões madrugadores eufóricos: Sub raça do anterior, tem ainda a característica quase psicopática de chegar eufóricos de manhã, dando BOOOOOM DIIIAAAAA!!!!, contando piadas e querendo que você ria e dando tapas nas costas...tenho sérios problemas com esse sub tipo, pois a essa hora tenho problemas até para manter funções vitais básicas, como respirar, que dirá entabular uma conversação nesse tom. Seus hábitos provém de uma alegria e uma felicidade que não deve ser provocada por ser médico, ainda sendo estudados para maiores conclusões...

3) Cirurgiões da balada: Contrário do anterior, tem preferências vampirescas por horários alternativos, como noite e madrugada. Seres notívagos de hábitos estranhos, são geralmente novos, que dão plantão ou fazem consultório o dia inteiro e só tem esse horário para operar, e nós, anestesistas miseráveis, temos que acompanhar a batida. Também explicado pela aversão pura e simples a ir pra casa, será explicado no próximo item.

Workahollic...
4) Cirurgiões da T.O.L: É a Turma do Ódio ao Lar. Fazem QUALQUER COISA para permanecer no hospital, devem ter mulher feia, filho chato, não sei, mas tem preferência de operar a noite ou no final de semana, ficando o maior tempo possível no trabalho, e levando o anestesista de lambuja. Também compostos por viciados em trabalho, que tem um prazer mórbido de operar o máximo de tempo possível. O tratamento para esta condição são eletrochoques e afogamentos sucessivos em água fria, pelo menos é o que nós anestesistas gostaríamos de fazer com eles...Só para ilustrar, reproduzo aqui um diálogo mantido por mim com um desses malucos uma vez:
  Cirurgião: Hahaha, minha mulher vai viajar este fim de semana... disse esfregando as mãos
  Eu: Vai comer alguém diferente? Puteiro? Já sei vai encher a cara e dormir o tempo todo?
  Cirurgião: Não, hahaha, vou operar o fim de semana todo hahaha, disse com os olhos vidrados...

Cardíaco em ação...
5) Cirurgiões cardíacos: Nesse ponto tenho sorte, os grupos que trabalho em minha cidade são de pessoas gentis e equilibradas, mas são exceções á regra da espécie. O cirurgião cardíaco é um ser superior, praticamente uma divindade na Terra, e quer ser tratado como tal. Exigem reverência. São criaturas raivosas e pitizentas, querem sempre tudo do seu jeito, são susceptíveis a ataques de pelanca e descompensações psicológicas graves. Jogam pinças na parede, xingam enfermagem, anestesistas, auxiliares e suas respectivas mães. Tratam residentes como cachorros e...pensando bem nesse ponto eles estão certos, residentes SÃO cachorros...
Cirurgião: Senhora, a cirurgia de seu marido foi um sucesso...
Familiar: Ah, graças a Deus...respirou aliviada
Cirurgião: Obrigado, realmente eu brilhei hoje...

6) Cirurgiões carentes: São aqueles com carência afetiva séria. Te chamam por qualquer motivo, exigem atenção o tempo todo. Precisam de elogios de 5 em 5 minutos, o ego super inflado. São piores que mulher com TPM. Nada, absolutamente nada NUNCA está bom,e fazem questão de dizer o tempo todo como você, anestesista, é um ser miserável e que se não fosse por ele você estaria na rua da amargura pedindo esmolas. Tive um diálogo essa semana que ilustra bem a espécie:
Cirurgião: Paciente está bem?
Eu: Sim, hemodinamicamente estável. Foi muito bem operado por Sua Grandeza, Ó Magnânimo...(ironia mode ON)
Cirurgião: Mas e os exames de laboratório?
Eu: Tudo bem, também, tudo corrigido e...
Cirurgião: É mas você hoje foi péssimo.
Eu: Eu?
Cirurgião: Sim, você olhou pouco para o campo cirúrgico, poderia ter prestado mais atenção no que EU estava fazendo...
O distúrbio é causado por falta crônica de carinho na infância, o de umas boas porradas mesmo...

Se houver algum dos colegas que ao ler este texto vestir a carapuça: Sim, era de você mesmo que eu estava falando...
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Só o trabalho liberta
   "Fui transferido para Aushwitz no final daquele ano de 1943, segundo meu comandante eu faria parte como cirurgião de trabalhos científicos naquele campo. Os médicos chefes alemães aos quais eu seria subordinado eram  Joseph Mengele e Carl Clauberg, entre outros, e segundo meus superiores, minha perícia e rapidez cirúrgicas seria essenciais no auxílio a esses trabalhos. Óbvio que eu não fazia idéia do que eu realmente encontraria ali e nada tinha me preparado para aquilo. Eu tinha sido originalmente designado para realizar ooforectomias(1), cirurgia bastante simples, mas que eu não via nenhum propósito serem realizadas em ambiente militar, até descobrir o que realmente estava sendo feito e os resultados que se procuravam.
  Do pórtico de entrada do campo, onde se lia que só o trabalho liberta, até a execução da maioria das experiências conduzidas ali, tudo era dissimulação e mentira. Desde a chegada dos prisioneiros, conduzidos como gado, passando pelo "preenchimento" de formulários em ambientes com altas de doses de radiação(para esterilizá-los), até a simples execução em câmaras de Zyklon B (2). Entrei em desespero, puro e simples desespero, mas tive a impressão de que poderia fazer alguma coisa para diminuir o sofrimento daquelas criaturas, não sei se só por piedade, mas uma forma de ser auto indulgente, de tentar diminuir a vergonha que eu sentia por ter traído a memória de meus pais e trabalhar como colaboracionista.
Vítima de experiência nazista
   Conversando depois com oficiais alemães e colegas poloneses, fiquei sabendo que experiências médicas com cobaias judias, podemos chamar assim, eram disseminadas pela maioria dos campos de concentração da Polônia. Eram bem conduzidas, dentro do rigor científico e estatístico (3), e eram de maneira geral divididas em 3 categorias:
   Em primeiro lugar experiências que visavam a sobrevivência de oficiais do próprio Eixo.  Em Dachau, por exemplo, oficiais médicos da Força aérea alemã realizaram experimentos sobre reações à altitude, usando câmaras de baixa pressurização, para determinar a altitude máxima da qual as equipes de aeronaves danificadas poderiam saltar de pára quedas, em segurança. Também experimentos com congelamento, usando prisioneiros como cobaias para descobrir método eficaz de tratamento de hipotermia, além de outros para testar vários métodos de transformação de água marinha em potável. Desnecessário dizer o número de mortes durante a condução destes experimentos
Cigano
  Em segundo, desenvolver e testar medicamentos, além de métodos de tratamento para ferimentos e enfermidades. Nos campos de Sachsenhausen, Dachau, Natzweiler, Buchenwald e Neuengamme, foram testados agentes imunizantes e soros para tratar e prevenir doenças como malária, tifo, tuberculose, febre amarela, hepatite, inoculando os prisioneiros com tais doenças. Em Ravensbrueck foram feitos experimentos cruéis com enxertos ósseos, além de testarem a sulfonamida, a custa de muitas vidas. Em Natzweiler e Sachsenhausen, prisioneiros foram sujeitos aos perigosos gás mostarda e fosgênio.
Crianças de Mengele
  Por último, experiências que buscavam aprofundar os princípios raciais e ideológicos da visão nazista. As mais infames foram as de Joseph Mengele, em Aushwitz, que utilizou gêmeos, crianças e adultos, além de experiências  sorológicas em ciganos, querendo demonstrar diferentes comportamentos frente a doenças nas diferentes "raças".
  Foi num desses dias macabros que eu inesperadamente conheci meu fim. Ia começar o dia operando uma prisioneira do campo. Eu costumava fazer raquianestesia, embora nem todos concordassem em utilizar qualquer tipo de anestesia. Convenci-os, de maneira dissimulada, que aplicar anestesia facilitaria os procedimentos, pois os "pacientes" se mexeriam menos e fariam menos barulho do que simplesmente amarrá-los, como era hábito da maioria. Na verdade eu queria acabar com o sofrimento daqueles miseráveis, ao menos diminuir.
Cirurgias em Aushwitz
  Tinha iniciado a intervenção, quando a prisioneira começou a balbuciar alguma coisa ininteligível, talvez consequência do barbitúrico que eu aplicava antes de iniciar a anestesia. Um dos soldados presentes, rindo, aplicou uma violenta coronhada na cabeça da paciente, mandando que se calasse, e gargalhando depois de constatar que sua atitude tinha despertado risos nos outros. Cheguei ao limite, não suportava mais aquela covardia, minha mente açoitada por pensamentos de vingança, virei-me, puxei a Lugger P08(4) do coldre do soldado, encostei em sua têmpora e puxei o gatilho. Foi tudo muito rápido, como um sonho...o cérebro dele voando aos pedaços pela sala junto com o spray de sangue vivo, os gritos e xingamentos, a confusão de tiros em minha direção...fui praticamente metralhado por 3 ou 4 Luggers, mas ainda tive tempo de esboçar um sorriso antes de desabar no chão, inerte.
   Uma grande lição para toda humanidade foi tirada desses dias sombrios, e que se espera que não se repitam,  toda sordidez humana disfarçada de ideologia, toda sua desumanidade disfarçada de guerra. Não foi somente uma guerra, foi uma covardia sem precedentes. O neófito que criou o termo genocídio foi extremamente feliz em sua idéia."


Notas do autor:

(1) Cirurgia para retirada dos ovários.


(2) Zyklon B era a marca registrada de um pesticida a base de ácido cianídrico, cloro e nitrogênio que foi utilizada pelos nazistas como veneno no assassinato em massa por sufocamento nas câmaras de gás, era ativado em contato com ar.

(3) Ainda hoje se discute sobre se utlizar os resultados desses experimentos, que foram realmente bem conduzidos do ponto de vista científico, exceto é claro sua parte ética.

Lugger P08
(4) Principal pistola adotada pelo exército alemão, depois de 1908(daí seu nome), é considerada o maior souvenir da Segunda Guerra Mundial.










segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
"Bip, bip,bip
Se parar, faz o som com a boca...
Os dois velhinhos se olharam:
- Feliz Natal, vizinho...
- Pra você também...
Bip,bip,bip
- Infarto tanbém?
- É...com angioplastia primária...Você?
- Nah, infarto comum, só precisei de droga mesmo...estreptoquinase...
Bip, bip, bip
- Mata uma curiosidade, que merda de bipbip é esse que fica o dia inteiro aí?
- O que é eu não sei, mas se o seu bip parar, começa a imitar o som com a boca...o do vizinho da frente parou essa semana e ele tomou uma porrada no peito por causa disso...não satisfeitos, veio um monte de gente depois e até choque ele levou...
- Mas se o problema é no aparelho, não é mais sensato dar uma porrada no aparelho?
- Não se fazem mais médicos como na minha época...
- Ô...

O anestesista colocava o uniforme do centro cirúrgico, constrangido. Ela, muda. O setor estava quieto.
- Isso nunca me aconteceu, só pra registro...
- Fica tranquilo, deve ser remorso por estar traindo sua mulher na noite de Natal...
- Hum...
Isso nunca me aconteceu...
- Pelo menos agora dá pra adivinhar sua especialidade sem você dizer, se eu não soubesse diria que você é anestesista...
- Por que?
- Por que eu não senti nada...rs
- Ah é, saiba que essa sua mania de pediatra de ficar fazendo vozinha de criança e chamando de neném também não é das coisas mais excitantes do mundo, viu?
- Brocha...
- Imatura...
Cada um pro seu canto.




O som vindo da sala de procedimentos era ensurdecedor
- Que merda é essa, tão assassinando um leitão aqui hoje, que gritaria! A enfermeira chefe do PS estava irritada.
Tampão improvisado
- É o Cidão "Cachorro Louco", tá reduzindo um prolapso de reto...O residente de cirurgia estava meio envergonhado.
- Mas é assim mesmo?
O cirurgião do plantão sai da sala...
- Pronto, reduzi o prolapso e tochei um "O.B."  improvisado que eu fiz, de compressas, esse prolapso não sai mais...
- Mas chefe, a hora que ele tirar o tampão para evacuar, o prolapso vai sair todo de novo, não era melhor operar logo? o residente parecia ansioso.
- Animal, vai sair de novo, mas não no MEU plantão de Natal, amanhã o colega que atender que se vire...
Quando ele sai, a enfermeira olha pro residente com ar de reprovação:
- Podia ser pior, já viu como ele trata mulher com histeria que bate aqui no PS?
- Não...diz o residente, desanimado
- Ele coloca a indivídua na última maca lá do canto, faz um litro de soro direto na veia,  uma ampola de diurético e espera...se ela estiver fingindo e não quiser se mijar toda, tem que atravessar o PS correndo pra ir no banheiro...
- Putz!
- E se chegar cachaçado, continuou ela, ele trata direitinho, mas antes do cara sair faz um enema, pro cara se cagar  assim que chegar em casa...

Ele, residente da cirurgia, corria atrás dela, residente da anestesia e sua esposa, com um prontuário na mão. Ambos pernambucanos chegados ao Rio pra fazer a residência médica.
Apendicite agora não, benhê...
- Amor, posso colocar minha apendicite na sala agora?
- Oxi, amor, agora? Daqui a pouco é a ceia de Natal, não é hora de fazer apêndice!
- Mas vida, eu tentei colocar mais cedo...
- Mais cedo eu e os residentes estávamos ocupados limpando a área pra noite, cirurgias que VOCÊ arrumou...
- Como assim eu arrumei, meu docinho de abóbora, por acaso eu fico aí na frente do hospital chamando pacientes pra operar? Com aquela placa tipo sanduíche "Opera-se aqui"? Os pacientes vêm sozinhos...
- De qualquer jeito, estávamos ocupados...
- Eu tentei depois do almoço também...
- Mas calanguinho, você sabe que depois do almoço eu gosto de tirar uma sonequinha, não é hora de por apêndice na sala!
- Amor, e de tarde?
- À tarde você sabe que complica, sempre chega fratura pra operar, dos mulambos que caem da laje bêbados...
- Eu sei, mas agora tá tranquilo e...
- Pitéu, deixa pra amanhã tá...
Diálogo baseado em fatos reais.


   Hora da ceia de Natal, todos que não são animais inferiores, como residentes e internos, param um pouco o trabalho pra confraternização. Aquela enfermeira que odeia médicos abraça todos que encontra, aquele anestesista que não topa com aquele cirurgião está praticamente abraçado com o cara...o milagre do Natal...
O residente de cirurgia chega esbaforido, com uma pilha de exames pra mostrar pro "cachorro louco":
- Doutor Aparecido, chegou um baleado de abdome, tá meio instável!
Cidão "Mad Dog"
- Aparecido o caralho, não gosto desse nome!
- Mas o senhor não deixa os residentes te chamarem pelo apelido...
- Me chama de Sua Majestade então, mas Aparecido ninguém merece...
- Sua Majestade, chegou um baleado aí no PS, já corri os exames, tem sangue na cavidade, tem que operar agora!
- Bandido?
- Não , policial...
- Merda!
- Por que, tem diferença?
- Claro, bandido a gente coloca um sorinho bem devagarinho e põe o cara na sala de procedimentos, aguarda um pouquinho, as vezes não dá tempo de operar...uma pena...ele fala com uma tristeza irônica.
- Bom, posso levar pra sala então?
- Pode, e vira-se pro outro cirurgião da equipe, Ô maluco, tem um baleado pra gente operar agora, pára de falar gracinhas aí pra enfermeira que tu não vai pegar mesmo e vam'bora acabar com isso duma vez...
- Bandido? pergunta o outro
- Não, policial...
- Merda!

Nota: Tanto o casal pernambucano quanto o cachorro louco são reais. O fato de publicar essas pérolas não implica em concordar com os fatos aqui expostos. Bom Natal a todos!


Nota 2: Prolapso de reto:http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?348

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