segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

   Minha vida dentro do centro cirúrgico não tem nem de longe o glamour das séries médicas americanas por uma pequena, insignificante característica de minha augusta pessoa: sou um tanto quanto azarado, desastrado se preferir. Ela me acompanha desde priscas eras, mais ou menos quando aprendi a andar e acreditem, não tem melhorado com a idade. Sempre fui aquele cara que chega derrubando bebida em restaurantes, tropeçando e catando cavaco ou lesionando a pessoa mais próxima de alguma forma. No colégio eu já rolei de escada, dei cabeçada na trave de futebol, levei bolada no saco tantas vezes que já cheguei a perder a consciência durante um jogo. Tive que aprender a lidar com isso depois da vida médica pra não matar ninguém e fui razoavelmente bem sucedido, o que não significa que eu não continue atentando contra minha própria vida. Se eu fosse um desenho animado, sem titubear me classificaria como o coiote do Papaléguas ou o Patolino.
   Resolvi, com uma pequena dose de bom humor, classificar os pequenos e grandes acidentes da vida do anestesista, muito comuns no meu dia a dia, além  de outras condições que deveriam gerar um dinheiro extra em nossa conta por insalubridade.

1) Cortar os dedos em ampolas: A gente que quebra ampolas o dia inteiro já está acostumado com os pequenos machucadinhos do dia a dia, daqueles que a mamãe no máximo ia dar um beijinho e falar "quando casar,sara...". O fato é que pelo menos uma vez por semana eu me corto, na maioria das vezes cortes comparáveis à entrada do aparelho reprodutor feminino ou o Grand Canyon. Sou o único anestesista que eu conheço que já teve que levar DOIS PONTOS no dedo após um acidente com ampola, o cirurgião que deu os pontos ainda comentou "porra, já vi ferimentos com facas menores que esse aí!!". E o fato de além de ser azarado, desastrado, não ter boa memória, esquecer rápido e fazer a mesma merda na semana seguinte não ajuda.

2) Dar cabeçada no foco cirúrgico: Esse eu sou campeão, já perdi a conta da quantidade de galos que tive que por gelo durante o trabalho. Dificilmente passo um dia sem dar 2 ou 3 cabeçadas enquanto a cirurgia não começa e eles estão perigosamente posicionados muito baixos, parece que são seres com vontade própria a espreita, silenciosos, prontos pra atacar seres inocentes que teimam em transitar próximos. Costumo dizer que se ser humano tivesse chifres, eu ia ter que colocar novos quase todo dia...não sei se essa frase ficou adequada, mas enfim...

Caiu, levanta!
3) Cair da cadeira de fazer bloqueios: Essa também só vi acontecer comigo, e não foi uma vez só. A gente se senta pra fazer anestesias condutivas (raque ou peridural), na lateral da cama, com acesso às costas do paciente. às vezes, em alguns lugares que você vai elas não são lá muito estáveis. Daí, pra um cara como eu, cair é mole. O tombo mais engraçado que eu já tomei foi numa maternidade, eu lembro que a grávida estava muito estressada, nunca tinha entrado no centro cirúrgico, chorava e apertava as mãos da enfermeira. Na hora que eu sentei, automaticamente emborquei pra trás com fé, soltei sem querer um potente "AI CARALHO", o que só serviu pra aumentar o nervosismo da mãe. Ainda ouvi ela perguntar se estava tudo bem com o bebê dela...

Acontece...
4) Miscelânea: Aposto que vocês nunca ouviram falar disso: Estava indo em direção à recuperação pós operatória e vinha uma enfermeira na minha direção, distraída, balançando os braços ao caminhar. Não sei como ela conseguiu acertar minha digníssima bolsa escrotal com aquela força, mas ela conseguiu. Aliás, no lugar onde ela bateu nem precisava de força, foi daquelas porradas milimetricamente calculadas pra derrubar qualquer ser do sexo masculino. Ajoelhei no chão de dor, lembrando das boladas da época da escola, vendo um monte de pontinho preto. Óbvio que ninguém acreditou na hora que fosse sério devido a meu histórico de filha da puta. Essa menina até hoje fica envergonhada na minha frente, ela era novata na época, tipo primeira semana de serviço, e claro que eu faço questão sempre de lembrá-la do episódio, passando perto dela e fingindo proteger com as mãos a zona atingida no episódio.
   Outro prodígio sensacional que eu consegui com muito esforço foi com boas intenções. Estava de plantão numa maternidade, na hora da troca de plantão da enfermagem, a auxiliar estava sozinha. Eu, bom moço querendo ajudar, disse que tirava uma paciente da sala cirúrgica sozinho, para que ela pudesse arrumar a tal sala pra outro procedimento. Passei a paciente pra maca, abri a porta de vidro com o pé enquanto empurrava a tal maca. Já adivinhou. né? A porta voltou com toda força na direção da maca e espatifou em milhares de pedaços o vidro, causando um respeitável prejuízo. A paciente dormia tranquila e nem se deu conta...

Eu depois da explosão...
5) Explosão do conteúdo de seringas: Muito comum em drogas diluídas na correria quando você faz mais pressão do que deveria ou a seringa é vagabunda, sou bom nessa também. Ficar com a cara cheia de  cefalotina "explodida" é quase diário, mas semana passada foi ors concours. Estava eu injetando um monte de porcaria no soro da paciente quando a circulante de sala, provavelmente movida por ódio ou desejo de vingança contra minha ilustre figura, tirou o suporte do soro do lugar e consequentemente desconectando minha seringa, estourou droga pra todo lado, inclusive DENTRO DOS OLHOS. Depois de um sonoro putaquepariucaralho, fui lavar o rosto, uma ardência do cacete...humpf...


Foto minha rindo de um colega
6)Cirurgião humorista: Do ponto de vista psicológico o fator gerador de insalubridade mais grave em minha opinião é ter que rir de alguns colegas que juram que são humoristas de stand up. Eu tenho um colega cirurgião que é tão chato que consta no Guiness Book como causador do maior suicídio coletivo após uma piada mal sucedida. O cara conseguiria constranger até o Bozo. Temos inclusive uma piada interna entre a gente que, se alguém pisar na bola, chamamos o tal fulano pra contar uma piada. A ameaça costuma surtir efeitos.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
parede de escudos
   Citando Richard Gordon, o homem descobriu a pólvora, e a pólvora inventou a cirurgia como nós a conhecemos. Mais ou menos no século XV, os golpes de espada e tiros de flecha foram superados por ela. Os tempos "românticos" das paredes de escudos, dos arcos longos, do corpo a corpo caminhavam para seu anti clímax.
  Como em vários segmentos da civilização, o advento da "linha de produção" da matança veio pra ficar. A escala industrial era derivada de um meio mais eficiente e bem menos trabalhoso de mutilar e matar, e levou à engenhosidade na aplicação, posterior diminuição do custo de produção de seus implementos. Determinou, praticamente sozinha, o fim da Guerra de Cem Anos e do Feudalismo europeu, assim como, mais tarde, confirmou a superioridade, em vários episódios, da minoria que a tinha contra uma maioria, exemplos a conquista dos Astecas por Cortéz, da África pelos europeus, dos índios norte americanos pelos colonizadores ingleses, do homem pela muher...esse não, sacangem...As diferenças logo se fizeram sentir na medicina, mais especificamente  na cirurgia. Uma espada abre no corpo um golpe limpo, enquanto um P.A.F(projetil de arma de fogo) tem como complicadores a carne queimada, porta aberta à infecções e corpos estranhos(chumbo) e tecido interiorizados.
   Durante a Dinastia Han, na China do século VIII, alquimistas taoístas , ao perquisar um "elixir da imortalidade" produziram vários incêndios ao fazer testes com enxofre e salitre (nitrato de potássio). No final da Dinatia Tang, foi descoberta a combinação de salitre, enxofre e carvão, e foi inicialmente usada em fogos de artifício e sinalizadores. Depois foram inventadas granadas de mão simples, lançadas no inimigo através de catapultas. Em 1126 d.C., um oficial chamado Li Gang registrou a defesa da cidade de Kaifeng com o uso de canhões, que causou um grande número de vítimas numa tribo de saqueadores.
   Vou apresentar algumas figurinhas que deram grandes contribuições para cirurgia de uma forma geral, nesse período que sucedeu o advento das armas de fogo:



1) Dominique Jean Larrey(1766-1842): Cirurgião chefe da "Grand Armée" de Napoleão Bonaparte. General Médico, nascido em 1766, sua contribuição mais conhecida foi a ambulância voadora, uma caixa leve sobre duas rodas, puxadas por 2 cavalos, para retirar feridos do campo de batalha, ao invés de deixá-los morrer até a luta terminar. Foi a primeira ambulância de que se tem notícia. Com técnicas e equipamentos de hemostasia, perfilando os cavalos, diminuindo as rodas e curvando o telhado para evitar acúmulo de água e peso, abrindo janelas de ventilação, acoplando macas retráteis e kits de primeiros socorros, conseguiu dar grande agilidade à invenção.(foto no final do post) Larrey tinha fama de ser um cirurgião extremamente eficiente, diz-se que chegou a fazer 200 amputações por dia em Borodino. Foi considerado o primeiro cirurgião de guerra moderno, criou também vários instrumentos e equipamentos úteis para médicos em batalhas.

Charles Bell
2) Sir Charles Bell(1774-1842): Anatomista e cirurgião famoso, responsável pela separação dos nervos sensores dos motores, uma das descobertas mais importantes da anatomia fisiologia humanas, ele é conhecido pela Paralisia de Bell, uma paralisia facial relativamente comum. O livro "Uma ideia de uma nova anatomia do Cérebro" foi fundador da neurologia clínica moderna.
   Em ambientes de guerra, era um cirurgião incansável, operava amigos e inimigos com mesmo afinco, dormia 2 horas por noite. De seu diário:
"É impossível descrever o quadro de miséria humana que eu tinha sempre ante meus olhos. Enquanto eu amputava a perna de um homem na altura da coxa, 13 outros feridos esperavam para serem operados...Era estranho sentir minha roupa engomada com sangue e meus braços exaustos com esforço de manejar o bisturi..."


Thomas " Test",  feito pelo próprio
3) Hugh Owen Thomas(1843-91): Clínico geral de bairros pobres de Liverpool, ficou famoso por desenhar a tala para imobilizações de fraturas compostas de fêmur, um dispositivo simples em sua concepção, mas que diminuiu a mortalidade destas fraturas de 80% para 20%.

4) Nikolai Pirogov(1810-81): Cirurgião militar, que como Florence Nightingale na Criméia, insistia em medidas de maior conforto para os médicos e introduzindo enfermeiras de guerra, num local dominado pelo sexo masculino. Um dos fundadores do "field surgery", foi também um dos primeiros europeus a utilizar éter como anestésico para as cirurgias.

5) Friedrich von Esmarch(1823-1908): Cirurgião alemão, inventou aquela famosa faixa de borracha para retirar todo sangue da circulação da perna, facilitando e muito a vida do cirurgião. Dispostivo de uma simplicidade impressionante, baseia-se no conceito do torniquete, mas faz total exanguinação do membro antes de instalar a isquemia(torniquete).

Ambulância voadora, de Larrey
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Ibn Sina (Avicena)
    Estava relendo pela trigésima vez o clássico de Noah Gordon, O Físico, aliás sou dos que acha que a tradução do original “The Phiysician” foi um erro, ficaria muito mais fidedigno “O médico”  ou “O Clínico”, por mais explicações forçadas que dêem para o título em português. Bom, o livro trata da epopéia de um médico na Idade Média, da Inglaterra a Pérsia, um dos berços da Medicina (acreditem, aquela região já prestou, e muito!), onde tem aulas com o próprio Avicena em pessoa. Pra quem não sabe, Ibn Sina  é um dos mais célebres filósofos e médicos da Pérsia medieval, era também astrônomo, químico, geólogo, paleontólogo e professor. Uma pena realmente que uma civilização tão avançada tenha dado origem a um país como o Irã, mas isso fica pra outro post.
   Conhecendo um pouco da realidade da Medicina de outras épocas me fez refletir no como eu sou feliz viver na época atual, e ás vezes quando ouço alguém reclamando de uma dor fraca ou ansiedade ou da espera por uma consulta de convênio, gostaria de apresentar um pouco dessa história pro mimizento. Não quero dizer com isso que devamos nos conformar com essas coisas só por causa do Passado, mas talvez pudéssemos encarar com outros olhos o tratamento médico atual . E foi a idéia desse texto, dar uma pincelada em alguns causos ou histórias e comparar com o que aconteceria hoje em dia.
   Pra começar, um trecho do próprio livro de Noah Gordon, sobre uma patologia hoje simplérrima, a catarata:
Facoemulsificador
Depois de conversar com o médico judeu Benjamin Merlin de Stafford, Rob se dirigiu para um povoado de Leicestershire onde sabia que Master Merlin havia operado um homem de catarata.

O povoado onde Rob estava era tão pequeno que nem tinha uma taverna (...) O trabalhador que estava mais perto da estrada interrompeu o movimento ritmado de ceifar para informar onde ficava a casa de Edgar Thorpe.

Rob percebeu imediatamente que Thorpe enxergava
(...) – estou aqui para fazer umas perguntas sobre a operação que restituiu sua visão porque tenho um parente que quer se tratar.
(...) Thorpe tomou um gole de bebida e suspirou.
- Espero que seu parente que quer fazer o tratamento seja um homem forte, com muita coragem.
Amarraram-me as mãos e os pés numa cadeia. Presilhas cruéis rodeavam minha cabeça, pendendo-a à cadeia de espaldar alto.Tinha tomado muitas doses e estava quase insensível com tanto álcool, mas então puseram um ganchinhos embaixo das minhas pálpebras, seguros por assistentes para que eu não piscasse. A minha doença era tão grave que eu só via os vultos na minha frente. Master Merlin segurava uma lâmina que ficava maior à medida que a mão descia, até cortar meu olho.
A dor fez evaporar todo efeito do álcool. Eu estava certo que meu olho tinha sido arrancado e não só a nuvem que o embaçava. Quando cortou o outro olho a dor foi tamanha que perdi a consciência. Acordei na escuridão dos meus olhos vendados e por quase quinze dias sofri horrores. Mas afinal consegui enxergar como não enxergava Há muito tempo...”

Cirurgia de facoemulsificação
Nos dias atuais, com uma anestesia tópica (colírio), o oftalmologista faz uma incisão milimétrica na córnea, e através de um aparelho chamado facoemulsificador, “dissolve” a catarata e a aspira, colocando no lugar uma lente intraocular que faz as vezes do cristalino. O paciente é submetido a uma sedação leve, levanta-se e vai embora na mesma hora. O pós operatório é praticamente indolor, e se houver dor, um analgésico comum costuma resolver. Diferente, não?


    Visita em enfermaria fictícia mas possível em uma faculdade de Medicina Inglesa do Séc XVIII:
“O cirurgião famoso passava em visita aos leitos seguido por seu séquito de alunos ansiosos por absorver qualquer pequena pérola de sabedoria do renomado professor. Ele era famoso por ser um dos cirurgiões mais rápidos da Inglaterra, condição essencial num mundo sem anestesia. Dizia-se que conseguia fazer uma amputação de perna em menos de 3 minutos. Um dos pacientes era um senhor  com um volumoso tumor de língua. Ele não titubeou, ali mesmo retirou o bisturi do bolso da casaca e, com a ajuda de um dos pupilos, decepou em um só golpe a lesão e parte da língua. O sangramento e o choque que se seguiu à cirurgia foram suficientes para matar o pobre homem, em meio a gorgolejos convulsivos no chão. A visita então continuou no leito seguinte após breve olhar de lamento do médico...”
Após exames pré operatórios e sedação Pré anestésica, o paciente seria submetido a anestesia geral e, após a cirurgia, extubado e levado a recuperação, já tendo tomado analgésicos e anti eméticos(drogas para não enjoar). Pós operatório tranqüilo apenas com analgésicos fracos.

Daí você fala: “Ah, mas comparar os dias atuais com o tempo anterior a anestesia é moleza. Depois dela tudo mudou, certo?” Errado! Caso 3(verídico):
“A cirurgia de amigdalectomia transcorria normalmente no paciente de 4 anos de idade, quando o cirurgião informou ao anestesista que o sangue estava com coloração escurecida. Ato contínuo o anestesista sentiu o pulso da criança diminuir e ficar filiforme. Interrompida a cirurgia, já em parada cardiorrespiratória, mudado  modo ventilatório e oxigênio a 100%, realizadas manobras usuais de ressuscitação com sucesso. Criança depois encaminhada a UTI, onde permaneceu até alta pra casa, com seqüelas  neurológicas graves, como afasia (incapacidade de falar) e distúrbios motores. Morreu um tempo depois por pneumonia, conseqüência de imobilidade prolongada e problemas respiratórios. O caso é da década de 1970”
   Hoje, com monitorização de oxigenação sanguínea(oximetria), cardíaca através de monitor, pressão arterial e capnografia(monitor de CO2) a queda de oxigenação e pulso seria percebida no início, dando tempo ao profissional de tomar as medidas cabíveis antes da deterioração do quadro. Essa é a monitorização padrão de qualquer anestesia geral. O problema no caso foi defeito em uma simples válvula do sistema respiratório.

Da próxima vez que você for ao médico, dê um grande abraço no cara e diga que você está muito feliz de viver em 2011...
   
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
   A formação do médico é um somatório de conhecimentos técnicos, aulas práticas de psicologia e sociologia, exemplos de comportamento exemplares ou claramente equivocados. Nesses últimos, entra a formação ética/psicológica que veio de sua casa, o que aproveitar e o que descartar da miríade de seres que você conhece nos plantões da vida, que eu gosto de chamar de zoológicos.
Doc Brown
   Você acaba cruzando com pessoas que os mais crédulos numa entidade superior acreditariam que foram colocadas no seu caminho de propósito, para que você aprendesse alguma lição em sua vida. Alguns  marcam o nosso jeito posterior de agir, de nos comportarmos. O Dr. Ligadão era um cara desses.
   Dr. Ligadão era o cirurgião geral de um desses inúmeros plantões que eu dei como acadêmico durante a faculdade em pronto socorro. Tinha esse apelido nas internas porque  simplesmente não dormia. Por não dormir, entendam no sentido literal. Ele não ficava insone somente durante nossos noitadas na emergência, segundo ele, dormia mais ou menos 2 ou 3 horas a cada 3 dias. Os olhos eram meio esbugalhados, calvo, lembrava um pouco o Doc Brown, personagem do Cristopher Loyd no De Volta para o Futuro. Tragava quantidades rubembragueanas daquele cigarro Minister (nem sei se ainda existe...), sentado em sua mesinha na sala de conforto médico do pronto socorro a madrugada inteira, lendo, conversando com os plantonistas do horário que ficavam acordados, ensinando acadêmicos e residentes técnica operatória.
   Aliás, tinha uma paciência infinita pra ensinar, infinita mesmo. Tinha predileção por acadêmicos de terceiro ano (nós...), que não tinham os conhecimentos mais básicos de porra nenhuma e ensinava o beabá da cirurgia, ficava com a gente na sala de sutura e chamava pra auxiliar cirurgia, explicando todos os passos. Seu tratamento para com os pacientes e colegas era exemplar, desde que a recíproca fosse verdadeira. Quer um exemplo? Uma colega nossa de plantão, viciada em dolantina, foi flagrada desmaiada no quarto feminino com seringas e ampolas por perto. Após a total recuperação do episódio, num outro plantão, Dr. Ligadão expôs a moça a uma das maiores humilhações públicas que eu já presenciei, esporro daqueles pra colocar nos anais da esporrologia moderna. Ela chorou muito, prometeu parar. Algum tempo depois fiquei sabendo que tinha se matado em seu apartamento no Rio, overdose. Se ele ficava sabendo de algum dos estudantes que fumasse baseado, lá vinha esporro também.
Barão de munchhausen
  Outro lance famoso que ilustra bem sua dúbia personalidade aconteceu na famosa salinha de sutura, ele e uma acadêmica novata aprendendo a suturar num bandido do morro próximo, completamente transtornado por cocaína. Durante o aprendizado da menina, o paciente começou a insultá-la, "puta" era o termo mais simplório utilizado. Ligadão puxou a pistola que ele não abandonara após se reformar do exército e aplicou uma respeitosa coronhada na cabeça do coitado, abrindo mais uma lesão QUE A PRÓPRIA MENINA SUTUROU. Muito tempo depois a gente brincava com ela, dizendo que como a sutura dela não estava boa, o Ligadão produziu mais um corte suturável pra ela treinar mais. Esse episódio terminou num daqueles processos administrativos internos que são devidamente engavetados. O traficante, óbvio, não prestou queixa (aliás, do jeito que estava travado, nem dor deve ter sentido...), e o Ligadão aproveitou a coronhada e disse que se ele abrisse mais a boca pra xingar alguém no plantão dele, ele não ia bater, ia atirar. Ninguém duvidava.
   Contava  causos dignos de um pescador. Dizia que já tinha entubado um paciente em parada respiratória sem usar laringoscópio, mais ou menos como veterinários entubam cachorros para operar. Se eu fosse falar aqui de todas as vezes que ele me contou que abrira pacientes na sala de emergência  (1) com intervenções heróicas, daria outro post. Detalhe: seus pacientes das histórias sempre se salvavam. Eu gostava de compará-lo àquele célebre personagem das fábulas, Barão de Munchhausen, (fizeram até um filme...), que o Monteiro Lobato gostava de colocar nos livros do Sítio do Picapau Amarelo, famoso por ser um PUTA mentiroso, que sempre dava um jeito de se dar bem. O problema é que quando você via o cara no dia a dia, começava a acreditar nas suas peripécias.
   Senti muita falta dele depois que acabei aquele estágio. Fui até cúmplice dele numa das sacanagens que ele aprontou com um colega. Foi mais ou menos assim: esse colega era o cara mais chato que eu já tinha conhecido, uma mala sem alça. Nesse plantão ele tinha comprado uma coca de 2 litros e deixado na geladeira, o Ligadão tinha aberto e tomado um copo. O cara fez um escarcéu tamanho que o Ligadão foi no bar em frente ao hospital e comprou outra coca igual, pôs uma etiqueta com o nome do cara na garrafa e colocou na geladeira. Me pediu que roubasse um Lasix (2) no PS e, depois de distrair o cara,  mandou colocar o conteúdo da ampola inteiro na garrafa. Não preciso nem contar quantas vezes ele foi no banheiro urinar naquela noite e eu neguei até a morte participação naquilo...
   Quando fui ao Rio, já morando em São José, anos depois, correndo na rua, encontrei um colega do plantão, no Grajaú. Perguntei do Ligadão e ele me contou que o câncer de pulmão o tinha levado , naquele ano. Pagou o preço dos milhares de cigarros de sua vida. Dessa vez nosso Barão de Munchhausen não tinha conseguido se safar...Vai em paz, xará, pro céu dos mentirosos...


Notas do autor: 1) Fazer toracotomias de urgência no PS é um procedimento heróico, pouco utilizado, feito quando não se tem alternativa. Por exemplo realizado na Lady Di na noite de sua morte, em 1997.

2) Diurético potente, nome farmacêutico: furosemida.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Este texto é atribuído a Luis Fernando Veríssimo. Se é dele, não sei, mas acho que vale a pena ler e refletir. Uma pena que esses milhões de pessoas que assistem o programa nem sabem por que ele se chama Big Brother. Orwell morreria de desgosto...

"BIG BROTHER BRASIL
(Luiz Fernando Veríssimo)

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço...A  décima primeira (está indo longe!) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil,... encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.

Dizem que em Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir, ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... todos, na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE...

Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB. Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.

Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que  recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo.

Eu gostaria de perguntar, se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.

Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis?

São esses nossos exemplos de heróis?

Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros: profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor, quase sempre mal remunerados..

Heróis, são milhares de brasileiros que sequer têm um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir e conseguem sobreviver a isso, todo santo dia.

Heróis, são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.

Heróis, são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada, meses atrás pela própria Rede Globo.

O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral.

E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!

Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.

Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social: moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?

(Poderiam ser feitas mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores!)

Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.

Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema..., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir.

Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade."
 
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Residentus sapiens sapiens
   Costumo dizer que o ser inferior mais próximo do ser humano é o residente. Exageros à parte, esse segmento da vida médica é dos mais ricos, pródigo em histórias, estressante, insuportável, sensacional. Faça um exercício mental: Imagine trabalhar 24 horas seguidas. Imaginou? Agora coloque uma bruxa maldita ou um chefe estúpido (chefe no sentido pejorativo, pois os dois chefes de residência que tive eram por acaso absolutamente justos e sensatos) berrando na sua orelha o tempo todo. Acrescente estudar ao mesmo tempo para saber bem o que você está fazendo mais períodos de privação de água, comida, bom senso. Já? Ok, agora vira um caminhão de merda na sua cabeça e pronto, você é um residente.
   Sem eles, o hospital público não funciona. Realizam as mais variadas tarefas, além de desempenhar sua função médica. Algumas delas:

1) Office Boy: O staff ou preceptor quer almoçar? O laboratório está demorando para liberar exames? Você esqueceu alguma coisa no carro, 13 andares abaixo? Sem problemas, chame seu residente e encarregue-o da tarefa, ele será o office boy mais bem formado que você terá. Lembro uma vez que um colega trouxe o almoço de um staff , e num dos sacos plásticos havia uma lata de refrigerante e uma moeda de troco. O cara, acintosamente, tirou a lata do saquinho e jogou com raiva no lixo, por causa da moeda. Azar o dele que esse meu colega era pavio curto, lembro de quase agressão física, tiveram que separar os dois. Parecia aquela briga de crianças tipo "cuspi no chão, se pisar no cuspe chamou minha mãe de puta e vai morrer..." Hoje os dois riem do episódio.

2) Psicólogo: Os staffs, no meu caso da anestesia, eram pessoas em constante crise existencial. Reclamavam de tudo e de todos. Do cirurgião, do salário, do salário do cirurgião, das condições de trabalho, do chefe, dos residentes...Obviamente hoje em dia eu deixo essas pessoas falando sozinhas, fujo, digo que estou com diarréia, invento um surto psicótico, finjo que estou muito ocupado e por aí vai. Mas na época arrumar inimizade com um staff do serviço não era um bom negócio. Agora imaginem eu, um sujeito sem a menor sensibilidade para esse tipo de serviço, tendo que escutar lamúrias reentrantes, principalmente das mulheres, e dar apoio, nem que fosse aquele clássico balançar da cabeça como quem diz "te entendo...". Chegava a doer fisicamente.

lerê lerê, lerê erê lerêêê
3) Médico Substituto: Essa é bem fácil de imaginar. Emprego público, ainda mais no RJ, paga salários ridículos. Os staffs dependiam, como todos nós, da clínica particular, suas cirurgias fora daquele ambiente. Quem mais indicado pra "segurar só uma horinha" a cirurgia pro cara ganhar dinheiro? Adivinhou, o residente. Geralmente essa horinha eram 3 ou 4, ou simplesmente o staff nem voltava. Eu pessoalmente não ligava de ficar completamente sozinho, o foda é que você não podia sair da sala, como residente, nem pra fazer xixi, ou seja, havia dias em que eu testava os limites da capacidade humana de reter eliminações fisiológicas...

4) Funcionário de pesquisas e trabalhos científicos a.k.a escravo: Às vezes não tinha como escapar, muitos "bons colegas" queriam realizar trabalhos científicos, mas precisavam da casuística. Nada melhor que um hospital público, onde o volume de doentes era alto, e eles não questionavam quando você os avisava que eram parte de um trabalho, pois era instituição de ensino.
Acontece que essas figurinhas, já conhecidas por nós, residentes, deixavam TODO trabalho braçal pra gente, e somente colocavam o nome nos créditos. Haviam várias maneiras de fugir dos mais sacanas, como dizer que já estava envolvido em outro trabalho; ou que o tema do trabalho tinha mais a ver com "..."(preencha a lacuna com o nome de qualquer colega seu que você não gostasse); ou que simplesmente você estava tratando de câncer ou tuberculose e ia ter que se afastar por um período...o importante era fugir.

5) Professor: Em algumas situações, depois de um período na residência, você já sabia mais que alguns staffs do serviço, e isso significava aguentar calado que eles fizessem atrocidades e asneiras diversas, e ainda falar em tom professoral sobre sua genialidade. Trombar de frente com essas bestas era inviável, tinha que se respeitar a hierarquia, e aqui sim, a maneira de agir exigia astúcia e sutileza. De uma maneira geral, você tinha que fazer o que VOCÊ achasse que estava certo, mas sempre deixando o staff pensar que ELE tinha tido a idéia, mais ou menos como naquele filme "Inception", plantar uma idéia na cabeça do sujeito. Outra coisa que eu fazia muito era mandar a figura ir tomar um café, fazer tudo que eu quisesse, e quando ele voltasse, dizer que estava tudo ótimo, que a anestesia dele estava perfeita.

  Residência não é só desgraça, pelo contrário, pela primeira vez na vida de médico temos um pouco de dinheiro, da bolsa e dos empregos extra (sim, ainda dávamos plantão pra tirar um extra). Geralmente solteiros, todos já com seus carros, é a fase onde mais fazemos estragos com o sexo oposto. Muitas destas histórias estão perdidas aí no arquivo do blog, leia se tiver saco. Falar nisso, se você está lendo isso e também tem um blog, ou simplesmente passa por aqui com frequência, cadastra aí ao lado no Google Friends Connect (followers), só curiosidade pra eu saber quem se suplicia lendo essas bobagens que eu escrevo. ;)
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Não é bem essa nossa realidade...
   Há um tempo venho pensando em escrever em homenagem a essas valorosas guerreiras da saúde, essas amazonas dos centros cirúrgicos que povoam o imaginário popular com suas roupas sexy de vitrine de sex shop (embora a verdade seja um pouco diferente e com menos graça): as enfermeiras. Aliás tente colocar enfermeira no Google Images e veja a quantidade de fantasias safadas que vai encontrar, tenho que me lembrar de pesquisar de onde surgiu esse fetiche.
   A enfermagem é a categoria que, junto com os anestesistas, tem a vida mais bandida num centro cirúrgico. Elas conseguem tomar esporro dos cirurgiões, de suas chefes, dos maridos e pasmem, até de alguns anestesistas, que geralmente são os seres mais tranquilos e pacíficos do ambiente, praticamente santos vivos.(o blog é meu, se quiser mentir também, faça o seu...). Pra quem não convive em nosso meio, enfermeira é aquela que fez faculdade de enfermagem e geralmente é chefe dos setores onde atua, já as técnicas de enfermagem, que convivem mais com a gente, são as que fazem um curso técnico e trabalham mais nos cuidados básicos aos pacientes e apoio aos médicos. Esclarecidas as diferenças que ninguém perguntou porque não estava interessado, um pouco da história da categoria.
Florence Nightingale.
   Não dá pra falar em enfermagem sem citar Florence Nightingale, enfermeira britânica que ficou famosa por ser pioneira no tratamento dos feridos na Guerra da Criméia(1853-1856), na península de mesmo nome, atual Ucrânia. Tradicionalmente o papel de enfermeiras era realizado por mulheres ajudantes, acompanhando exércitos, muitas vezes cozinheiras ou prostitutas que desempenhavam  o papel por castigo. Florence sempre se preocupou muito com o tratamento destes feridos, além dos mais pobres e necessitados. Ao retornar da Criméia, ela relatou às autoridades as terríveis condições do tratamento médico no front, realizando então um treinamento de 40 mulheres e seguindo depois para os Campos de Scutari, na Turquia Otomana. Em 1859 passa a dedicar-se ao ensino somente, funda a Escola de Enfermagem do Hospital Saint Thomas. Em 1883 a Rainha Vitória lhe concede a Cruz Vermelha Real e em 1907 se torna a primeira mulher a receber a Ordem do Mérito.
  Após a pequena resenha, passo a enumerar os tipos mais comuns de auxiliares e enfermeiras que encontramos em nosso pequeno zoológico:

Novatas
1) A novata ou "bichinho-do-mato": Tímidas e desconfiadas, chegam sempre olhando pra baixo e falando em tom de voz comedido, só pra algumas semanas depois serem flagradas dançando funk na salinha de enfermagem ou falando palavrões que fariam aquela sua avó beata fazer o sinal da cruz.
Confesso que tenho uma admiração especial por esta categoria, os primeiros dias delas são os melhores.Gosto de recebê-las com frases do tipo "bem vinda ao inferno"ou "você já conhece Dr. Fulano de tal? Não? Pois é, ele vai te fazer chorar...". Também curto(mas acho que elas não...)  "pegadinhas" do tipo "fulana, pega pra mim duas ampolas de "shurables", por favor, só pra ficar vendo a coitada ir na farmácia 6 vezes antes de perceber que é sacanagem.
Mas a mais legal é você pedir pra ela entrar na sala de um cirurgião que está operando e dizer que algum desafeto do cara ligou e ofereceu pra fazer a cirurgia se estiver muito difícil, se o mesmo não estiver conseguindo, de preferência um desafeto que o cara odeie bastante. As reações são as mais variadas, indo de risadas a "puta que pariu, isso é coisa do filho da puta do Hugo!"

2) As auxiliares de enfermagem "médicas": São aquelas que, por já terem experiência no seu setor, acham que sabem tanto ou mais que você, não te poupando de palpites ou olhares de desaprovação quando acham que você está cometendo um erro. Seu argumento mais utilizado é "Dr. Fulano de Tal não faz deste jeito...". São seres muito agradáveis e de fácil convívio, quase sempre tenho vontade de dizer obscenidades e impropérios, mas tento evitar pois o pior inimigo que um anestesista pode ter é a enfermagem. Elas podem transformar sua vida num paraíso ou num inferno...

Presidente da A.S.M.A. caçando uma vítima
3) A A.S.M.A.: Sigla para Agarre Seu Médico Agora, associação criada para organização e sistematização de golpes do baú em geral. O que elas não perceberam é que, tirando algumas poucas exceções, nossa categoria não tem mais o glamour e a riqueza de outrora, ganhamos atualmente o suficiente para talvez pagar as contas, ou seja, o máximo que elas arrumam pra casar é um indivíduo duro, estressado, barrigudo e que passa muito tempo fora de casa.
  Essa associação vem de um tempo em que valia a pena casar com médico, era a garantia da aposentadoria e da vida tranquila, hoje só quem enriquece é o advogado que fará a separação depois...

4) As "de reunião": Enfermeira que é enfermeira adora uma reunião, talvez até mais que dirigentes de empresa ou filiados do PT. Ainda vou descobrir o que tanto fazem em reunião, mas tenho alguns palpites. Os que  acho que tem mais chance de estarem certos : a) jogam ping pong ou videogame  b) Se reúnem para falar como aquele médico é grosso, ou aquele outro é lindo e tem barriga de tanquinho  c)Discussão sobre assuntos de suma importância para o funcionamento do hospital como o final da novela, o BBB ou ambos.

5) As plantonistas: São as que dão plantão noturno, e como ficam acordadas a noite inteira, acham que você, de sobreaviso em casa, também está. Gostam de fazer todo tipo de perguntas óbvias e ululantes neste horário, tipo: "Doutor, o senhor prescreveu dipirona em caso de dor para o paciente. O paciente está com dor. Posso fazer a dipirona?" Geralmente eu não lembro o que respondo pois estou semi consciente apenas, mas não deve ser nada agradável...

6) A Paola: A Paola me ofereceu uma grana pra eu citar ela aqui e como estou duro, topei. Paola, pode depositar na conta do Unibanco mesmo, ok?

PS 1: Queridas amigas enfermeiras, este é um texto de humor, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Se ainda assim não entenderem, eu desenho... E sim, nós amamos vocês...

PS 2: O título do texto e a maior parte dele foi escrito depois da terceira dose de Red Label, mas eu achei que ficou bonitinho e resolvi deixar assim mesmo...

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Médico, anestesista, ateu e peão

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